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quarta-feira, 20 de outubro de 2010




O CORAÇÃO NÃO TEM MARGENS

Como se todas as coisas fossem possíveis,
mesmo o milagre de vozes solidárias e cúmplices
na teimosia de quem acredita na magia
de qualquer lonjura, sei, de súbito,
que o coração não tem margens:
é um mar frágil que submerge
os olhos desprevenidos do homem.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

segunda-feira, 5 de julho de 2010



TÃO CÚMPLICES AS PALAVRAS

Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.


GRAÇA PIRES
De O silêncio: lugar habitado, 2009

quinta-feira, 27 de maio de 2010

UM OLHAR

Se um dia passares pela nascente de um rio
visita a minha sombra húmida,
indiferente à inquietação das árvores
carregadas da memória do vento.
Pára e inclina sobre ela um olhar tão cúmplice
como quem, com lentíssimas mãos,
pressente o apelo dos lábios.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

domingo, 16 de maio de 2010

ALGUÉM ME DISSE


Alguém me disse, um dia, que as aves
marinhas vão morrer (ou repousar)
no solitário coração dos barcos afundados.
Que sugestão de luz lhes indica
o inevitável caminho das águas mais azuis?


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009