sexta-feira, 31 de dezembro de 2010



ESPERANÇA


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.

 Mário Quintana

***
ESPERANÇA

De uma vida nova...
De um novo dia...
De dias melhores...

Que o amor de Jesus Cristo seja com todos nós.

Feliz 2011!

João Paulo







quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

 
MEU DESTINO

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…


Cora Coralina

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

 
TALVEZ

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

 
De Ernesto Cardinal

Ao perder a ti, tu e eu perdemos.
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
E tu, porque eu era o que te amava mais
Contudo, de nós dois, tu perdeste mais do que eu
Porque eu poderia amar a outra como amava a ti
Mas a ti não te amarão como te amava eu.

trad. Celso Japiassu

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MINHA VIDA

Você vai embora, minha vida, sem mim.
Segue adiante.
E eu ainda hesito em dar um passo.
Você leva para longe a batalha.
Deserta-me assim.
Nunca a segui.
Suas ofertas não são claras.
Tão pouco quero e você nunca traz.
Por conta dessa falta, almejo tanto.
Tantas coisas, quase o infinito...
Por conta desse pouco que falta, que você nunca traz.


MA VIE

Tu t'en vas sans moi, ma vie.
Tu roules.
Et moi j'attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me désertes ainsi.
Je ne t'ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l'apportes.
A cause de ce manque, j'aspire à tant.
A tant de choses, à presque l'infini...
A cause de ce peu qui manque, que jamais tu n'apportes.

Henri Michaux (1899-1984), poema extraído de La nuit remue (1935)
Tradução de Jean Cristtus Portela

domingo, 26 de dezembro de 2010

 
DELICADEZA

Delicadeza é a sensibilidade
aflorada na essência da alma...
É sentir o sussurar do vento
trazer o aroma do lírio do campo
com sua magia e o seu encanto...
É sentir na pele a brisa do mar
numa bela noite de luar
despertando
o desejo de amar.

Elias Akhenaton

sábado, 25 de dezembro de 2010



DUALIDADE DOS SERES

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010




"Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: 'Nós acreditamos que esta verdade seja evidente, que todos os homens são criados iguais.'
... Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter."

***

"Temos de enfrentar dificuldades, mas isso não me importa, pois eu estive no alto da montanha. Isso não importa. Eu gostaria de viver bastante, como todo o mundo, mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus, e ele me deixou subir a montanha. Eu olhei de cima e vi a terra prometida. Talvez eu não chegue lá, mas quero que saibam hoje que nós, como povo, teremos uma terra prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus olhos a glória da chegada do Senhor". 

Martin Luther King

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


VAIDADE

 

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!


Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...


E não sou nada!...

Florbela Espanca


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


 

SONETO - MULHER ABSTRATA

 

Sou quem sou, simplesmente mulher, não fujo, nem nego,
Corro risco, atropelo perigo, avanço sinal, ignoro avisos.
Procuro viver, sem medo, sem dor, com calor, aconchego,
Supro carências, rego desejos, desabrocho em risos...


Matéria cobiçada... na tez macia, no calor ardente.
Alma pura, envolta em completa fissura. Sem frescuras!
Encontro prazer na forma completa, repleta, latente.
Meretriz sem pudor,mulher no ponto, uva madura!


Sou quadro abstrato, me entrego no ato à paixão que aflora.
Sou enigma permanente, sem ponto final, sem continências,
Sou mulher tão somente, vivendo o momento, sorvendo as horas.


Sou pétala recolhida, sem forma, sem cor, completa em essência.
Exalo a esperança, transpiro vontades. Não me tenhas senhora.
Sou mulher insolúvel, nada volúvel. Vivo a vida em reticências...

Angela Bretas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



AMORES IMPOSSÍVEIS

O que torna os amores impossíveis mais bonitos é justamente a impossibilidade. Esta atrai.

A dificuldade nos impulsiona, nos motiva. Exatamente como o perigo. As pessoas gostam de se medir às dificuldades porque têm necessidade de provar que são mais fortes. Assim, quanto mais difícil, mais o amor parece ser grande, excepcional e único. E quem não quer viver algo grande, excepcional e único?!

Num amor impossível cabem todos os sonhos, todas as perfeições, o mínimo detalhe é idealizado. Colocamos na nossa cabeça que aquela pessoa é exatamente o que esperamos da vida, mesmo se tudo parece contra. Ele fica pra sempre, mesmo se outros amores vêm e vão depois... e deixa aquela sensação de inacabado que nos persegue pra sempre.

Creio que no quebra-cabeças da vida é aquela pecinha que fica faltando para completar o todo. E mesmo se as noventa e nove outras estão lá, é aquela que falta, só aquela que deixa aquela dorzinha estranha que a gente não sabe definir, mas que sente de forma tão nítida e clara.

Acontece de um amor impossível tornar-se possível e isso quase sempre rouba a magia do sentimento. Inconscientemente muitos sabem disso, o que leva pessoas a preferirem viver um impossível que dá satisfação que um possível que pode abrir os olhos para a realidade. Porque uma vez que o amor torna-se possível, acaba a expectativa, acaba o sonho... e o homem foi feito pra ter sonhos, pra esperar por eles! O que explica o porquê de uma pessoa amar outra pela eternidade e nunca se declarar, de certos amores virtuais preferirem continuar no virtual.

Um amor impossível pode marcar uma pessoa mais que toda uma vida vivida ao lado de outra. E no outono da vida, quando o passado se faz mais presente que o próprio presente, é aquele amor que vai fazer brilhar os olhos e lembrar ao coração que ele ainda bate.

O impossível é belo!... como o arco-íris, o horizonte, o céu, o infinito!... que mantém acesa a chama no coração do homem e o faz sentir-se vivo.

Letícia Thompson

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010



PRIMEIRA VEZ


Há um momento encolhido,
Em que a poesia se parece
Com tudo o que vivemos
Nestes versos sortidos.


Fogo de duas chamas...
Fica dizendo ao peito:
Morrer agora é proibido!
Preciso amar direito.


Curiosidade meu amor...
Que fica espremendo nosso texto.
Há tantos sentimentos ali sepultados
Querendo ressuscitar perfeitos.


Que culpa há num olhar e na vontade apressada?
Ou, em uma pequena insensatez?
Nas mãos curiosas que tem o amor...?
No beijo e desejo de nossa primeira vez?


De Magela

domingo, 19 de dezembro de 2010



" Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles..."

Rubem Alves

sábado, 18 de dezembro de 2010



"Amo como ama o amor.
Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar.
Que queres que te diga, além de que te amo,
se o que quero dizer-te é que te amo?"

Fernando Pessoa

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010



...

Quem
sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois "


Mário Quintana

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010



A CANÇÃO DA VIDA

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Mário Quintana
de Esconderijos do Tempo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010



CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE

Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

 
CÂNTICO

Colho o inefável entre as mãos do vento
como quem colhe rosa em pensamento;

cresço no Tempo e o colorido lento
do vento apaga minha realidade;

pássaro livre nos jardins cifrados,
vôo em violino, em minhas mãos me invento.

Colombo de Souza
in 'Estágio'

domingo, 12 de dezembro de 2010

 
EM PAZ

Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança falida
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo no fim de meu rude caminho
que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;
que se os méis ou o fel eu extraí das cousas
foi que nelas pus mel ou biles amargosas:
quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;
mas não me prometeste noites boas apenas,
e, afinal, tive algumas santamente serenas...

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!


Amado Nervo-Mexico-
Tradução de Anderson Braga Horta

sábado, 11 de dezembro de 2010

 
ESPELHO

O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.

Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?

Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado
Qual ama guarda o doce infante, eu hei.

E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu.


William Shakespeare
tradução de Ivo Barroso

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

 
SEMPRE

Palavra que se diz, sem pensar que na vida
tudo é efêmero e vão; tudo passa e não dura;
o maior desengano, a suprema ventura,
a glória tão falaz e tão logo esquecida ...

Miragem de quem sonha e acreditar procura
nessa palavra linda, a cada instante ouvida ...
Inconsciente mentira humana, proferida
talvez com a presunção de ser sincera e pura.

Duas sílabas só: - e um infinito abrange!
Faz esquecer, do tempo, o misterioso alfanje
e o sonho é realidade ... e embriaga mais que o vinho.

Mas para desfazê-la, às vezes basta um gesto,
uma sombra, um atrito ... e fica sendo o resto
de uma ilusão perdida à margem do caminho ...


Yde Schlönbach Blumenschein
Colombina
in Lampião de Gás
1982-1963

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010




Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen
1919- 2004

terça-feira, 7 de dezembro de 2010



ANOITECER

Amiúdam-se as partidas...
Também morremos um pouco
No amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos
Enluarados de ausência.

Helena Kolody
(Paraná- 1912-2004)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010



ÁRIA DO AMOR

O amor? Que sei do amor? Meus amores duraram
um sorriso de réu e um soluço de rei.
Oh, almas que colhi - que ventos vos levaram?
Oh! névoa de outro céu - quando vos reverei?

E tantas - ah, bem sei - longamente me olharam!
( São essas cujo olhar nunca mais olharei.)
E tantas eu venci! Por que se me entregaram?!
São as que mais perdi e as que menos amei!

O amor?! Que sei do amor? Deslumbramento e ânsia..
É um anjo que me enflora e que chora à distância. . .
meu sorriso de réu . . . meu soluço de rei . . .

E as damas que mal vi num momento e passaram
são as que mais sonhei - são as que nem sonharam
quanto amor imortal eu lhes consagrarei!

Murilo Araujo


domingo, 5 de dezembro de 2010



AMOR, FELICIDADE...

Infeliz de quem passa pelo mundo,
procurando no amor felicidade;
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde as jóias da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

Guilherme de Almeida

sábado, 4 de dezembro de 2010



AMAR DO VERBO AMOR

O amor não se conjuga no passado.
Contudo, se o amor de Deus passar...
Amor é instinto humano sublimado
e instintos não se podem conjugar...

Não amo amor que deva ser amado
segundo me convenha o verbo amar...
O amor é graça e nasce conjugado
como o fascínio que me traz o mar...

O amor é dom e nunca se ressente
do menos-que-perfeito do presente
nem do perfume se ressente a flor.

Juro por todo o amor que me doeu
que tanto que me dói ainda é meu
o presente de amar do verbo amor...


A. Estebanez

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



VIDA SEM AMOR

Não.
Nunca.
Jamais perguntes ou duvides
Se a vida tem valor
Sem a ternura,
Sem o carinho
E sem o amor.

Não cometas nunca
Nem de leve o engano
De viver no terreno árido,
Sem um pouco de carinho,
Sem alguém que lhe dedique
Um imenso e grande amor.

Sem amor na vida
Não se vive,
Sem amor na vida
Falta-nos o consolo,
Sem amor na vida
Passamos a viver sem colorido,
Na aridez de um deserto imenso...

O amor é o elixir da longa vida
Cuja fórmula vem de Deus...

Olympiades Guimarães Corrêa

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


Há uma hora certa,

no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...


Florbela Espanca