terça-feira, 18 de maio de 2010

EXALTAÇÃO

Venha!
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia!

Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
Se quer a alma aquecida
No lime da nova fé.

Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado!
Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado!


Miguel Torga

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Autumn Day

Lord, it is time now,
for the summer has gone on
and gone on.
Lay your shadow along the sun-
dials and in the field
let the great wind blow free.
Command the last fruit
be ripe:
let it bow down the vine --
with perhaps two sun-warm days
more to force the last
sweetness in the heavy wine.

He who has no home
will not build one now.
He who is alone
will stay long
alone, will wake up,
read, write long letters,

and walk in the streets,
walk by in the
streets when the leaves blow.

Translated by John Logan,
"Homage to Rainer Maria Rilke,"


Dia de outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho

Rainer Maria Rilke
Tradução:Nelson Ascher

domingo, 16 de maio de 2010

ALGUÉM ME DISSE


Alguém me disse, um dia, que as aves
marinhas vão morrer (ou repousar)
no solitário coração dos barcos afundados.
Que sugestão de luz lhes indica
o inevitável caminho das águas mais azuis?


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

sábado, 15 de maio de 2010


O HOMEM DA NEVE

É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.


Wallace Stevens
Tradução de Paulo Venâncio Filho


The snow man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

Wallace Stevens

sexta-feira, 14 de maio de 2010

AS DELÍCIAS DO AMOR

As delícias de um grande amor,
vai muito além do doce beijo e
do encontro de dois corpos
imaculados de desejo

esta no encontro de olhares
no flertar malicioso que aos
poucos evidenciam os pares
e na resposta do singelo riso

As delícias de um grande amor
esta na loucura de não ter juízo
e na liberdade de correr riscos...
De correr riscos por amor.

Valquíria Cordeiro

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SERENIDADE

Há muito tempo, Vida, prometeste
trazer ao meu caminho uma doida alegria
feita de espírito e de chama,
uma alegria transbordante, assim como esse
alvo clarão que se irradia
da orla festiva das enseadas,
e entre reflexos de ouro se derrama
do cântaro das madrugadas.


Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!…


A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.


Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.


Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto…
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão…
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!


Henriqueta Lisboa

quarta-feira, 12 de maio de 2010

COMO EU TE AMO

És meu tudo
És meu Senhor
És meu amigo, meu intercessor

Meu braço forte
Meu conselheiro
Maravilhoso
Meu 'Grande Eu Sou'

Eu não sou nada sem Ti
Eu não vivo sem Ti
Sem Tua presença eu morro

Como eu Te amo
Como eu Te quero
Sim eu me prostro aos Teus pés
A minha vida eu Te consagro
Tudo o que tenho é totalmente Teu

Tudo o que sou é totalmente Teu

Eu Te amo!

Fernandinho
VERSOS


Os versos em revoada
Faz no coração a pousada.
Tira a dor e a tristeza.
Mostra o amor como fonte de fortaleza!

Versos e belas rimas
No peito eleva a estima.
Converte em canção;
Uma feliz satisfação!

Versos que nascem e inspiram poesias
No amanhecer ou entardecer do dia.
Percorre e anuncia a felicidade.
Para ser do amor a realidade!

Versos que mandam sonhar
Viver e os realizar.
Pede fé e paciência;
E uma pacífica vivencia!

Versos declamados
Aplaude o êxito conquistado.
Coloca o amor em primeiro plano.
É o assunto do cotidiano!

Versos de paixão
Dança no coração;
De mãos dadas com a emoção... Infinita.
É o complemento que o amor possibilita!

Hortência Lopes

terça-feira, 11 de maio de 2010


QUISERA...

Quisera te encontrar na primavera
num crepúsculo casual feito quimera
e seguir de mãos dadas pelos campos,
evocando perto e longe os pirilampos.

Sorver as sensações doces e quentes
que percorrem a alma, corpo e mente,
quando a paixão explode em tarde calma
colher o fruto que nasceu da palma.

Quisera te seguir nas tardes tortas,
abrir janelas e fechar as portas,
quando o verão acende os poros, confiante,
e ser tua gueixa, concubina, eterna amante.

Secar tuas lágrimas com a luz do luar,
ser o teu fogo até o inverno passar,
tocar a harpa, se te sentir triste
e descobrir que o outono não existe.

Quisera viver contigo toda a vida
com a simplicidade complicada e esquecida
dos amantes que valsaram à luz do dia
sobre as rimas e o encanto da poesia.

Basilina Pereira

segunda-feira, 10 de maio de 2010

QUERIA!

Queria olhar em teus olhos e te ver

Como uma amiga e grande companheira
Alguém com que dividisse horas inteiras
Sem parar em seu olhar e ficar a me ver.

Queria estar com você e não ter pensamentos
De querer-te, reprimindo assim, meus desejos
Não buscar seus lábios e almejar seus beijos
Mas, não contenho os impulsos do sentimento.

Queria ter por ti admiração de amigo
Para viver uma linda amizade contigo
Me sentindo livre ao estar ao seu lado.

Queria! Apenas queria, pois não é possível
Meu coração traiu-me e mesmo escondendo
Este amor para o coração me rendo.

Ataíde Lemos

TE QUERO

Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça


Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois


Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro


Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia


Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois


E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero


E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só


Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão


Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.


Mario Benedetti

domingo, 9 de maio de 2010


" Dia das Mães "



Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a avelha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e ten encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tade agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graçs, diz:"Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que , nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!


( Antologia da Nova Poesia Brasileira
J.G . de Araujo Jorge - 1a ed. 1948 )

MÃE!

sábado, 8 de maio de 2010

CANÇÃO EM OUTRAS PALAVRAS

O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem, bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revôos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem de mais.

Lya Luft

sexta-feira, 7 de maio de 2010

AMO-TE

Amo-te como a planta que não floriu
e tem dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

Pablo Neruda

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A IMPACIÊNCIA DA ESPERA


Salmos 40:1 - [Salmo de Davi para o músico-mor] Esperei com paciência no SENHOR, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor.

No mesmo Salmo que começa com esperança, Davi termina, clamando “meu Deus, não te demores”. O primeiro verso exclama: “Esperei com paciência no Senhor, Ele se inclinou para mim e ouviu o meu clamor” (Salmos 40:1). Ninguém pede aquilo que já possui. O Salmo 40 descreve profundamente a luta entre nossa característica humana de tempo, contra a incompreensível natureza divina da eternidade. É por isso que esperar incomoda tanto. É por isso que, quando esperamos, nós o fazemos com impaciência. E é por isso, também, que nossos angustiados olhos da impaciência não percebem o Senhor que se inclina para nós e que já ouviu o nosso clamor… Há duas coisas, diz o salmista, que podem nos aliviar de nossa impaciência, em atitude de espera no Senhor. A primeira é crer que, segundo a Sua palavra, Ele sempre se inclina para nós. Ele se inclinou para nós na manjedoura. E, também, na dureza da cruz. E, paternalmente, no envio do consolador. A segunda coisa é crer que Ele já “ouviu o meu clamor”. Não foi isso que disse Jesus, quando nos afirmou que o Pai sabe, “antes que nós o peçamos”? A única saída, então, para nossa impaciência humana é vivenciar a realidade das promessas eternas.

Olavo Feijó
MEU CORAÇÃO

Eu tenho um coração
Que cabe muito amor
É um coração doação
Se assemelha uma flor.

Coração sem maldade
Que apenas sabe amar
Nele não há falsidade
Está sempre a se doar.

Quem dele se aproxima
Encontra repouso e paz
Nele há todo um clima
Harmonia à alma traz.

Coração que está aberto
Como fonte a oferecer
Para os do rumo incerto
Luz a iluminar o viver.

Eu tenho um coração
Que ama gratuitamente
Não fazendo distinção
Desta ou daquela gente.

Aquele que esteja cansado
Achega-se em meu coração
Sentirá por ele abraçado
Aliviará a angustia e tensão.

Ataíde Lemos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

BONS AMIGOS

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos,
os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

terça-feira, 4 de maio de 2010




SONETO DA FIDELIDADE

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 3 de maio de 2010



NOSSO CASO DE AMOR...

Eu abraço a tua alma,
porque, sempre esta
ao meu lado,enviando-me
carinho e manifestando-se
ao meu favor...
É que no fundo e, ao mesmo tempo,
nos rasos olhares, fica evidente
o nosso caso de amor.

MINHA ESTRELA

Pensar em você...
É como querer,
tocar uma estrela.
Se eu estendo a mão,
parece que vou alcança-la,
mas logo percebo que a
distancia é infinita.
E você continua lá...
Brilhando para mim,
como se realmente,
eu pudesse chegar perto.

domingo, 2 de maio de 2010


SEUS OLHOS...

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante,
que dorme tranquilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Gonçalves Dias

sábado, 1 de maio de 2010


O LUGAR DAS COISAS

Gosto das palavras exatas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjetivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido.

O que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.

Nuno Júdice